Comentário

<em>Ó camaradas!</em>

Sérgio Ribeiro
Deverá ser a última vez que escrevo para o Avante! antes das eleições para o Parlamento Europeu de 13 de Junho. Por isso, quando escrevo – a 30 de Maio –, embora ainda não tenha começado a campanha eleitoral, sinto-me tentado a fazer uma espécie de balanço da campanha… que ainda não começou.

Sempre em campanha

O facto é que, embora não tenha começado oficialmente a campanha, há umas boas semanas que andamos em campanha, isto é, preparando e trabalhando para as eleições.
Acrescente-se que no nosso caso, do PCP, se deve dizer que andamos sempre em campanha, ou seja, que em campanha eleitoral fazemos o mesmo de sempre: informamos e informamo-nos nos sítios e junto das pessoas, para melhor as poder representar e defender, e prestamos contas do nosso trabalho.
Uma espécie de balanço do que foi este período particular que se viveu com o horizonte das eleições também pode ser prestar contar, não obstante se privilegiar o aproveitamento da oportunidade para que no tempo entre a leitura do «balanço» e o acto eleitoral ainda se possa ajudar à tomada de consciência, à mobilização, à conquista de mais uns votos. Sobretudo os nossos, os que não podem faltar!
Começando por sublinhar que se avançou para a campanha com o enorme «handicap» do que tem sido a desinformação e a manipulação informativa que afasta os portugueses da política, isto é, da participação na vida social, por continuamente se desacreditar a política, os «políticos», a democracia.

A erosão na democracia

Se foi com alegria, com entusiasmo, que em 25 de Abril de 1975 se votou em Portugal para se escolherem os nossos representantes que iriam elaborar a Constituição Portuguesa, essa alegria e esse entusiasmo foram esmorecendo e as taxas de abstenção progressivamente aumentando. De engano em desengano, de ilusão em desilusão, de alternância em alternância, de promessas não cumpridas em (re)promessas para não cumprir chegámos onde estamos.
Também por um processo pouco consciencializado mas intuído de que as negociações entre Estados soberanos no processo de integração europeia que prossegue do «Mercado Comum» de 1957 até à «União Europeia» de 2004, foram conduzidas desde a contra-revolucionária «Europa connosco» por um Bloco Central PS-PSD, um PSD-cavaquista, um PS-guterrista, e agora por esta «desgraça» PSD/PP-Barroso/Portas que nos saiu na rifa, com sucessivas cedências sem contrapartidas a não ser a vinda de fundos comunitários acompanhando imposição de estratégias que servem os interesses financeiros transnacionais.
Por isso, o primeiro obstáculo a vencer terá sido o desinteresse pelos actos eleitorais em geral, e pelas eleições para o Parlamento Europeu em particular. S em que as curtas e inquinadas campanhas eleitorais possam ter os resultados desejáveis e necessários,

Objectivos na campanha

Essas consciencialização e mobilização para o acto eleitoral de 13 de Junho, para serem mais que – e o contrário! – da contínua e continuada desinformação e manipulação, agudizada em tempos de eleições, tinham de se basear na informação sobre a cada vez maior importância das instâncias comunitárias nos nossos quotidianos.
Logo se tentou acrescentar a pedagógica informação sobre o lugar do Parlamento Europeu nas tais «instâncias comunitárias», sendo a única para que os portugueses podem escolher os seus representantes, pelo que é a única em que a força dos trabalhadores e das populações se pode fazer sentir por via de eleição.
A destruição da economia produtiva portuguesa, da agricultura, da pesca, de actividades industriais, as privatizações e deslocalizações, o desmantelar de serviços públicos, o papel reservado para a nossa economia na «divisão internacional e europeia de trabalho» destinando-a a economia de serviços e apendicular, quem decide e julga os famigerados défices orçamentais e o seu estúpido Pacto de Estabilidade e Crescimento (?), onde se fixam as taxas de juro (no Banco Central Europeu, em Frankfurt), o carácter neoliberal, federalista, militarista que nos querem “oferecer” na bandeja de um tratado constitucional que já levou ao escândalo de subordinar a nossa constituição a uma «europeia» que até pode não vir a existir, a guerra que levam onde calha e a obsessão/ameaça securitária, foram – e são – exemplos ou ilustrações. Como são exemplos e ilustrações do capitalismo na fase contemporânea das relações sociais de produção… e da relação das forças de classe.

Uma interpretação/«balanço»
de como correu a campanha


Sendo estes conteúdos básicos para a consciencialização e mobilização, no quadro das linhas programáticas e compromisso eleitorais do Partido, procurámos assumir um papel na divisão de tarefas no trabalho colectivo em que uma pessoal (eventual) mais-valia teria levado à inclusão na lista e equipa, poderia ser o de trabalhar «para dentro», o de motivar a organização, animar os animadores, motivar os motivadores, mobilizar os mobilizadores. Aproveitando a formação (ou a deformação) profissional que é a nossa, e a experiência que fomos acumulando e tentando depurar ao longo das décadas de vida e de militância.
Depois de semanas de iniciativas e de contactos, percorridos milhares de quilómetros, feitas reuniões de vário tipo e visitas muito diferentes, de participação em muitos debates com representantes de outras listas (como seria bom que na votação se reflectissem os resultados dos debates…), estamos muito confiantes e preocupados.

Continuar até 13 de Junho… e depois

Cheios de confiança, porque na actualização do conhecimento do estado das organizações encontrámos muita vontade e muito entusiasmo, nos encontros mais diversos foi notória a recusa do actual caminho que percorre Portugal e a União Europeia de que Portugal é Estado-membro, e a oportunidade da afirmação de outros caminhos.
Muito preocupados, porque os adversários políticos têm meios incomparavelmente superiores àqueles de que a CDU dispõe, usam processos e têm comportamentos que não olham a meios e éticas, prosseguem as suas perversidades democráticas (veja-se a continuada manipulação da informação), porque a vontade e o entusiasmo nossos não se nos afiguraram homogéneos e, nalguns casos, muito deficientes.
Para acabar, porque o tempo e o espaço são escassos para qualquer tipo de «balanço», aproveito uma afirmação de Deus Pinheiro, cabeça de lista PSD/PP, quando disse que o Parlamento Europeu precisa de deputados trabalhadores, patriotas, respeitados e credíveis.
Ó camaradas!, daqui até 13 de Junho não acham que é fácil mostrar que os deputados e candidatos trabalhadores, patriotas, respeitados, credíveis, a partir de todos os critérios mas particularmente dos que têm por referência os interesses dos trabalhadores e das populações, são os que estão na lista da CDU?
Esta será a tarefa que temos pela frente nos tempos mais próximos: levar essa consciência a outros. E continuar depois de 13 de Junho.


Mais artigos de: Europa

Estranha democracia

A candidatura das listas independentistas bascas, «Herritarren Zerrenda» (HZ), às eleições europeias foi anulada na sexta-feira, 28, em última instância pelo Tribunal Constitucional de Espanha. Em França, porém, a HZ é legal e estará presente nos boletins de voto.

França recusa extraditar jovens bascos

O tribunal da cidade francesa de Pau recusou, na terça-feira, 1, executar o primeiro mandato de captura e extradição europeu emitido pela justiça espanhola contra três membros franceses da organização juvenil basca Segi, que está ilegalizada em Espanha, mas não em França.O juiz Baltasar Garzon acusa os jovens Haritza...

A concentração que se segue

Na sequência de um acordo obtido na passada semana com a Comissão Europeia, o Estado francês irá participar na capitalização do gigante industrial Alstom, cujo processo de reestruturação levará à extinção de 8.500 postos de trabalho em todo o mundo.

Paris e Berlim travam concorrência fiscal

Os ministros da finanças da França e da Alemanha, Nicolas Sarkozy e Hans Eichel, dirigiram, na passada semana, uma carta ao comissário responsável pelos assuntos fiscais, Frits Bolkestein, solicitando-lhe a tomada de medidas com vista a uma harmonização dos impostos sobre as empresas nos espaço da UE.«É urgente assegurar...